"Lembrei daquele momento em que a alma
transbordava a vida num belo contexto de silêncios e sofrimentos, até porque a
vida não teria graça sem o sentir. Perco-me na confiança de uma alma, ela já
não acredita mais na vida, ela não acredita em mim, em minha poesia, em minha
fantasia.
Em Meias palavras para essa sombra transtornada de medo
do escuro, enquanto caminhava sobre o alto de um prédio, tendo a luz da
preciosa lua como sua guia, com aquele crucifixo batendo em seu peito com um brilho
quase apagado, sentindo a inspiração das estrelas. O Som da morte era muito
alto, uma cantoria, uma bela voz, quase entorpecente para aquele pobre corpo
cansado e sofrido, ele caminha até a borda do prédio, a brisa acariciava sua
pele, e o vento ia contra seu rosto fazendo seu cabelo balançar e sugerindo
para que ele não prossiga com aquilo. Chegando a borda, ele coloca sua cabeça
para ver o que estava acontecendo e se depara com uma garota chorando sua linda
música, cantando sua triste vida e pendurada na superfície de um sonho quase
esquecido.
Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, e sua pele
estava pálida com um ar de frieza e desdém, ela fitava o universo e as
estrelas, ignorando totalmente aqueles grandes olhos arregalados do rapaz
platonicamente apaixonado, sem pensar ele estica uma de suas mãos num ato de
buscar aquilo que realmente tem valor... Uma vida.
Inconscientemente seus olhos não encaravam aquele ser que
gritava para que ela se reerguesse, só pensava na vida triste que tinha levado
e não queria pensar mais em nada a não ser se soltar para o eterno nevoeiro que
havia abaixo daquele andar.
Exausto de esticar o braço, ele começa lembrar de sua vida
num arco infinito, por que estava sofrendo tanto para ajudar alguém que estava
no mesmo barco que ele? Alguém que era como ele, na sua cabeça tudo começou a
fazer sentido, sua vida não era ruim como pensava e sempre teria alguém para
dar o valor necessário.
Inteiramente sua, as estrelas eram como caminhos a seguir e
eles sempre davam a algo intenso e brilhante, e por mais que elas brilhassem ao
longe, ele poderia sentir seu calor e sua brandura.
Triste e angustiado por não poder ajudar aquela estrela tão bela que
estava quase caindo em terra e perdendo seu brilho, ele começa a chorar por não
ser bom o suficiente, e uma lágrima de tristeza cai dos seus olhos, mostrando
que ele estava vivo e sentia, e ao cair no rosto da garota, ela desperta,
piscando e encarando aquele homem, que sorri ao ver que conseguiu alguma coisa,
ela para de cantar, segura a mão dele e sobe, sobe para o céu esplendido para
viver um amor cósmico, junto as estrelas, junto com aquele brilho quase
apagado." Simples de Coração. Miguel Lima