segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Singularidade

          Era um belo fim de tarde, o sol despejava suas ultimas películas da esperançosa luz, o vento era calmo e frio, aquela noite seria o solstício de inverno. A chácara do “meu tio” era grande, cheia de arvores e com um gramado imenso onde nós e os cachorros costumávamos correr e pular durante o dia, e quando a noite caia, nós íamos dormir em barracas, já que a casa não estava totalmente pronta, mas aquele dia ia ser diferente dizia eu sorrindo enquanto falava com dois amigos meus, um grande e forte e com um magrelo louco. Tínhamos exatos treze anos de idade, e depois de um dia cansativo, nos sentamos na pequena casa para comermos e conversarmos sobre nossas incansáveis descobertas do dia. Lembro que ela havia sentado com a gente, aquela que tinha os cabelos vermelhos, olhos penetrantes e cansados, junto com sua incrível revolta com o mundo tal como ele é, alguém que eu realmente não conseguia tirar os olhos nem por um segundo.

            O Sol tinha acabado de se por e a Lua sobre nossas cabeças nos conectava mais uma vez com o vasto silencio do universo. Os grilos começaram a cantar dando inicio a sinfonia da natureza, e nós, sem nenhuma preocupação, continuávamos a jogar conversa fora, quando meu amigo louco apontou para um canto e gritou:

            - Vocês viram aquilo?! – Perguntou entusiasmado e correndo atrás de uma lanterna.

            - O que era? – Retruca meu amigo grande e forte, seguindo o louco com a cabeça.

            - Sei lá! Mas eu quero descobrir! – E com um salto ele corre pro meio da mata e logo
atrás meu outro amigo.

            - Você vem? – Perguntei pra ela, com algo que era pra ser um sorriso.

            - Mas é claro! – Ela se levanta e nós seguimos conversando até a entrada da mata.

            Aquela entrada nos leva a parte de baixo da chácara, onde havia um lago onde “meu tio” e seus cachorros nadavam, lá era muito escuro, não tinha nenhum tipo de iluminação e as arvores rodeavam tudo aquilo. Eu e a Moça descemos para encontrar os outros dois.

            Só conseguíamos ouvir os dois gritando e rindo bem alto, correndo atrás um do outro, enquanto nós estávamos um pouco longe conversando sobre absolutamente nada... Foi quando... Eu comecei a tremer... As coisas começaram a passar pela minha cabeça, coisas das quais eu nunca tinha feito, pois tinha medo, eu comecei a sentir o frio do ar, parei de ouvir o que ela dizia e ouvi meu coração batendo bem de vagar, observava a escuridão, mas só conseguia enxergar o que eu realmente queria, sentia o cheiro daquele perfume de pimenta que me fazia estremecer, segurei sua mão que estava quente e se misturava com o meu frio, e por fim interrompi sua fala com meus lábios trêmulos e inexperientes, sentindo o doce sabor da sua luxuria, enquanto eu sentia a intensidade da vida, a intensidade do meu sentir. Foi naquele momento escuro e frio que entendi a singularidade de todas as coisas. - Singularidade. Miguel Lima

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