“Clamava pela aurora
no escuro da noite, eu era aquele que espreitava as árvores em busca de sangue
ou ouro. Caia o diabo em forma de chuva transformando aquele caminho de terra
em barro, a copa da arvore é minha casa, enquanto minha adaga é meu único bem
material, minha pele era suja como minha alma corrompida, aqueles que cruzavam
meu caminho eram levados a força ao purgatório.
O que eu mais
queria não estava comigo, na verdade, eu não sabia a sensação daquilo. Fui
brutalmente assassinado pelas palavras frias da morte que me leva lentamente ao
seu berço, a única coisa que ela queria é cantar aquela canção de ninar nos
meus ouvidos para eu nunca mais acordar. Eu já não tinha opção de viver, só
busco aquilo que os homens mais desejam, pois talvez isso tenha o mesmo efeito
em mim, mas não tem.
Relâmpagos cruzavam
os céus, e eu cruzava a terra, como uma flecha cruza o campo para atingir seu
alvo. Sabotar a carroça do rei era meu último
feito. Roubar o livro de segredos da Bruxa e, quem sabe, buscar nele alguma
coisa pela qual lutar, um novo objetivo, um novo motivo.
Lentamente eu ia
me preparando pra pular, a casca da arvore era pegajosa a chuva fria só
dificultava as coisas, era tudo muito escorregadio. A qualquer momento a
carroça surgiria, os guardas provavelmente me darão trabalho, volto a sentir a
dor do corte feito em meu peito, quase me levou para escutar a canção da morte.
Nesse momento preciso me preocupar com a Bruxa, ela talvez me dê mais trabalho
do que qualquer coisa, sei que não posso cair na tentação de tua beleza e na soberba
de tua palavra.
Tochas da
carroça surgiram no horizonte. Amarro meu cabelo, preparo minha adaga com um
veneno mortal e visto minha capa preta com mancha de sangue daqueles que haviam
conhecido a lâmina deste ladino. Desço como uma águia em fúria, dando um rasante
diretamente no pescoço do cocheiro levando-o para o berço de minha aliada, os
cavalos param, eu entro na carroça pela parte de cima, arrebentando o teto. Me
deparo com uma jovem moça sentada, com um capuz preto e com um livro em seu
colo. Ela dá um leve sorriso, eu uso minha adaga para tirar seu capuz e ver seu
rosto, ele era tão belo, aqueles olhos negros que paralisam meus braços, seu
rosto magro mostrava sua singela sensualidade e sua boca vermelha era a pura
luxuria. Eu já não buscava mais o livro, ela tinha o que eu nunca tive. Eu
havia encontrado algo pelo qual lutar.” – O Gatuno e a Bruxa I (?). – Miguel Lima.
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