domingo, 23 de março de 2014

O Gatuno e a Bruxa I (?)

            “Clamava pela aurora no escuro da noite, eu era aquele que espreitava as árvores em busca de sangue ou ouro. Caia o diabo em forma de chuva transformando aquele caminho de terra em barro, a copa da arvore é minha casa, enquanto minha adaga é meu único bem material, minha pele era suja como minha alma corrompida, aqueles que cruzavam meu caminho eram levados a força ao purgatório.

            O que eu mais queria não estava comigo, na verdade, eu não sabia a sensação daquilo. Fui brutalmente assassinado pelas palavras frias da morte que me leva lentamente ao seu berço, a única coisa que ela queria é cantar aquela canção de ninar nos meus ouvidos para eu nunca mais acordar. Eu já não tinha opção de viver, só busco aquilo que os homens mais desejam, pois talvez isso tenha o mesmo efeito em mim, mas não tem.

            Relâmpagos cruzavam os céus, e eu cruzava a terra, como uma flecha cruza o campo para atingir seu alvo. Sabotar a carroça do rei era meu último feito. Roubar o livro de segredos da Bruxa e, quem sabe, buscar nele alguma coisa pela qual lutar, um novo objetivo, um novo motivo.

            Lentamente eu ia me preparando pra pular, a casca da arvore era pegajosa a chuva fria só dificultava as coisas, era tudo muito escorregadio. A qualquer momento a carroça surgiria, os guardas provavelmente me darão trabalho, volto a sentir a dor do corte feito em meu peito, quase me levou para escutar a canção da morte. Nesse momento preciso me preocupar com a Bruxa, ela talvez me dê mais trabalho do que qualquer coisa, sei que não posso cair na tentação de tua beleza e na soberba de tua palavra.


            Tochas da carroça surgiram no horizonte. Amarro meu cabelo, preparo minha adaga com um veneno mortal e visto minha capa preta com mancha de sangue daqueles que haviam conhecido a lâmina deste ladino. Desço como uma águia em fúria, dando um rasante diretamente no pescoço do cocheiro levando-o para o berço de minha aliada, os cavalos param, eu entro na carroça pela parte de cima, arrebentando o teto. Me deparo com uma jovem moça sentada, com um capuz preto e com um livro em seu colo. Ela dá um leve sorriso, eu uso minha adaga para tirar seu capuz e ver seu rosto, ele era tão belo, aqueles olhos negros que paralisam meus braços, seu rosto magro mostrava sua singela sensualidade e sua boca vermelha era a pura luxuria. Eu já não buscava mais o livro, ela tinha o que eu nunca tive. Eu havia encontrado algo pelo qual lutar.” – O Gatuno e a Bruxa I (?). – Miguel Lima.

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